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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Poetas esquecidos

Amo-te Muito, Meu Amor, e Tanto



Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

Jorge de Sena, in “Poesia, Vol. I”





quarta-feira, 17 de julho de 2013

CONTINUA ACTUAL

PEDRO BARROSO

 
 
 
Img.Net
 
 
 
Mais Nada se Move em Cima do Papel
 
mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto, “O Medo”


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012



 
Nepal.
 
 
 
 
 
"...Curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja para eu  aprender a estar só.
  Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo."
 


Vergílio Ferreira

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Até parece bater certo

Carlos Carvalhas em1997 Sobre a Moeda Única


AFINAL, O HOMEM TINHA RAZÃO.

«A moeda única é um projecto ao serviço de um directório de grandes
potências e de consolidação do poder das grandes transnacionais, na guerra
com as transnacionais e as economias americanas e asiáticas, por uma nova
divisão internacional do trabalho e pela partilha dos mercados mundiais.
A moeda única é um projecto político que conduzirá a choques e a pressões a
favor da construção de uma Europa federal, ao congelamento de salários, à
liquidação de direitos, ao desmantelamento da segurança social e à
desresponsabilização crescente das funções sociais do Estado.»

Carlos Carvalhas, Secretário-geral do PCP — «Interpelação do PCP sobre
a Moeda Única»


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

 
 
 
 
 
 
 

Amor em paz



Eu amei
Eu amei, ai de mim, muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar

Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
Encontrei em você a razão de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais
Nunca mais
Porque o amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz
 
 
 
Vinícius de Moraes

quarta-feira, 21 de março de 2012

ARY DOS SANTOS

FOTO NET: BLOGUEIRO


RETRATO DE SOFIA


Senhora dona águia água égua

inglesa num jardim de potros gregos

mordiscando beleza rega cega

do regador de inês em seus sossegos.



De muitos anos colhes o magro fruito

que depressa transformas em compota

receita tão bem feita que de há muito

nos açucara o travo da chacota.



Porém quando por vezes és de pedra

não mármore mas árvore mas dura

do fundo do teu mar levanta-se a cratera

da nossa lusitana sepultura